Friday, January 06, 2023

Sobre a arrogância e a vaidade humanas


Eu me pergunto se, em certo momento na vida, todo mundo se sente menos egoísta e experimenta pensar mais no próximo, seja humano ou animal. Outro dia eu estava lendo a respeito de um sentimento irritante do qual compartilho: a noção de sermos todos especiais, sustentada pela arrogância e vaidade humanas.

O ser humano acredita que somos superiores na Terra, será mesmo? Superiores a todas as demais espécies e, talvez, os únicos dotados de uma missão, um propósito. Que mediocridade, principalmente quando, individualmente, o placar da maioria das pessoas está uma vergonha em matéria de altruísmo ou conquistas.

É justo dizer que a mente humana é a mais avançada na Terra. Promovemos conceitos como ambição, invenção e planejamento, o que nos deu uma vantagem sobre outras espécies. Mas até nisso tenho minhas dúvidas. E se houver uma mente muito mais avançada cuja missão de vida, porém, não seja dominar outras espécies? A ideia de dominação de outras espécies tão apropriada pelo ser humano sem, contudo, demonstrar responsabilidade e zelo é podre.

E no âmbito físico? Idolatramos atletas, instrutores, modelos, atores mais do que idolatramos nossos gigantes mentais, como pesquisadores, mestres, cientistas e filósofos.

Compartilhamos a maioria das características anatômicas de outros mamíferos - os órgãos vitais e a fisiologia são muito semelhantes. Com isso em vista, está provado que somos extremamente inferiores fisicamente quando comparados a outros. A maioria pode correr mais rápido do que o homem, é várias vezes mais forte e pode saltar muitas vezes mais alto e sobreviver a níveis muito maiores de dificuldades elementares.

Outras espécies também mostram superioridade física significativa, em muitos casos. Os peixes ostentam maior velocidade e capacidade de viver em ambientes de baixo oxigênio que seriam letais para o homem. Insetos possuem enorme força relativa e capacidade de trabalhar quase continuamente. O mundo vegetal é capaz de converter a luz do sol em energia.

Fisicamente, temos grandes limitações. Nossos corpos são incapazes de combater as células cancerígenas indefinidamente. Não combatemos os ciclos que levam à pressão alta ou doença arterial coronariana. Não temos a capacidade de regenerar a pele perfeitamente. O sistema histamínico de pessoas alérgicas a abelhas pode matá-las em resposta a uma toxina relativamente leve. Outros podem morrer por sua própria resposta imune se estiverem gravemente doentes. Nosso corpo é incrível, mas também contém enormes falhas cíclicas que agem em nosso detrimento.

Como seres humanos, é verdade que cada indivíduo é único, mas não mais único que dois flocos de neve que não são iguais ou dois cachorros que têm marcas faciais diferentes. Somos apenas um produto do DNA de nossos pais e sua expressão - isso é verdade para todos os animais da Terra.

O que soa absurdo é como as pessoas consideram que todos os 7 bilhões de humanos são especiais, como se cada um de nós tivesse um propósito poderoso na Terra. Antes de se parabenizar por quão magistral você é, observe o seguinte:

1. Pode-se dizer que cada par de mãos realiza uma pequena tarefa e isso torna a civilização possível. No entanto, apenas uma minoria da população mundial é produtiva. A pobreza em massa e a falta de educação fizeram com que uma maioria dependesse de uma minoria para sustentá-los em todo o mundo. Nenhuma outra espécie de mamífero pode se gabar disso. Vergonhoso.

2. Só a população da Índia aumenta 1 milhão por mês. De que forma cada uma dessas pessoa é extremamente especial e crítica para o universo?

3. A maioria das pessoas pode ter filhos. Basta um espermatozóide e um óvulo, os quais são encontrados em grande abundância na maioria das pessoas. Como podemos afirmar que somos especiais quando praticamente qualquer encontro poderia ter produzido você? O processo em si é uma grande conquista biológica, mas existem bilhões de outras pessoas resultantes desse mesmo processo.


Resumindo: você não é especial. Pense em pessoas brilhantes que já morreram e no quanto as pessoas sentem falta delas agora, após décadas e séculos. Essas foram pessoas realmente ótimas.

Agora, pense no homem comum e em como sua contribuição para o mundo é insignificante, exceto por sua capacidade de sustentar a espécie. Mesmo isso é discutível quando se tem uma enorme superpopulação mundial.

A questão é que, mentalmente, podemos ser desafiados por bilhões de outros seres humanos melhores. Fisicamente, estamos entre as espécies mais fracas da Terra. Vergonhosamente, usamos nossa proeza mental para dominar outras espécies.

Procriamos com facilidade e estamos em abundância excessiva. Com tudo isso em mente, as pessoas ainda fazem afirmações como "Você é tão especial e foi colocado aqui para um propósito divino"; "Você foi tocado pelo divino".

É verdade que Deus tem o poder de dotar cada ser humano de um propósito divino, mas Ele tem o bom senso e ética de esperar que cada qual se prontifique para tal. Deus não obriga ninguém a nada.

É hilário quando alguém diz que "um mundo sem você é intolerável"; "você é importante para o funcionamento da galáxia". Na verdade, nenhum de nós fará falta em 100 anos. Com sorte, seremos apenas uma memória. Para muitos, a ideia de que elas podem ser tão especiais para este planeta quanto um jumento ou um morro é excruciante.

Bom, mais uma vez, diante disso, eu me pergunto, como as pessoas conseguem viver de maneira tão egoísta, sem experimentar ajudar o próximo, seja humano ou animal? Para mim, todo mundo já nasce um nada. Para a maioria, se contentam com morrer como um nada.

Cito Rilke:

Quem, hoje, ainda se importa com uma morte distinta? Ninguém. Mesmo os ricos que, afinal de contas, poderiam ter esse luxo, começaram a ficar preguiçosos e indiferentes. O desejo de ter uma morte distinta está se tornando cada vez mais raro. Em breve, será tão raro quanto uma vida distinta. ― Rainer Maria Rilke, The Notebooks of Malte Laurids Brigge

Friday, October 07, 2022

Na Infância



Quando eu era criança, minha mente ficava confusa e dividida entre:


1) um lar em busca de reestruturação, porém influenciado por tradições cegas de uma geração inteira antes de mim;


2) profissões de fé diferentes da minha.


Eu voltava da escola muito intrigado com algo. Eu perguntava a respeito disso a minha mãe, mas ela não sabia me explicar. Eu sempre fui um dos alunos mais aplicados da turma, mas meus colegas protestantes (normalmente 3/40) tinham notas baixas, sofriam discriminação e eram excluídos, como se fossem inferiores. Ou seja, não eram seus cabelos ou roupas, mas o fato de eles se enquadrarem no grupo dos menos inteligentes da turma.


Muitos outros traços comportamentais poderiam ter sido um motivo de estarem em outra seleção, mas até isso era questionável. A verdade é que meus colegas protestantes estavam no extremo oposto ao que eu estava. Minha mãe, recém-convertida, nunca soube me explicar o motivo. Logo, eu me via assombrado com a ideia de um dia compartilhar da mesma fé que eles.


Quando penso em meus anos de escola como criança, penso em minhas professoras e no amor que elas me transmitiam. Nunca sofri qualquer tipo de desrespeito por parte de minhas professoras. Sempre as amei e elas sempre me amaram. Se eu pudesse traçar um paralelo entre o amor de minhas professoras e o amor de Deus, eu diria que minhas professoras me amavam com o amor que Deus esperava que elas fossem capazes de me amar. Então eu me lembro delas como anjos que Deus colocou em minha vida.

 

Naquela mesma fase, eu tive professoras de ensino religioso na Igreja Católica. Elas também me amavam com o amor que Deus havia colocado no coração delas. Eu era uma criança que estava aprendendo sobre o amor de Deus. Elas não deturparam nada do amor de Deus pelo homem. Mais tarde, já recentemente feito adulto, tive novos professores de ensino religioso, desta vez no âmbito protestante. Eles também me transmitiram o amor de Deus com seus ensinamentos e não o deturparam ou fizeram uso do nome de Deus para seus interesses próprios. Novamente, traço um paralelo entre os professores, agora protestantes, e o Amor Divino e sua longanimidade, bondade, simplicidade, humildade e paciência.

 

Por outro lado, voltando à infância, nem tudo na escola foi um lugar de segurança como o olhar doce, a nota 10, o sorriso e o abraço de minhas professoras amadas. Eu tive colegas de classe que me colocaram em situações de tristeza e medo. Fui julgado por meu tamanho, por minha origem social e étnica, por não me enquadrar, pelo meu jeito de ser, pelo nome de minha família, pelo bairro em que eu morava, pelas roupas que eu podia usar, pelas marcas das mochilas e dos tênis que eu calcei, pelo Jeans sem marca, pelo lanche que eu levava ou não levava, pela habilidade nos esportes (ou a falta de interesse por eles), por estar com as pessoas que não me julgavam e pelas pessoas com quem eu brincava, por participar de um evento sim e do outro não, por tudo aquilo em que eu me destacava ou por aquilo em que eu tinha dificuldade. Fui julgado até por ser o melhor aluno da sala. Fui julgado por tudo. Quem eram meus acusadores? A maioria de meus colegas, não todos. Isso doía muito.

 

Hoje, parte do Brasil declama 'Deus acima de tudo, Brasil acima de todos'. Já na história que narrei, eu sabia muito bem quem era Deus, tinha uma noção do tipo de país e cultura em que eu vivia, quem eu era, quem eram as pessoas que me amavam e quem eram as pessoas que me queriam mal.

 

O slogan acima não daria conta de minha história de infância e, sem dúvida, ele não me tranquiliza. Ele faz ainda menos sentido na voz de alguém que não acredita nisso e, pior, NÃO vive isso, ou seja, na voz de alguém que não acredita no país (cujo povo é parte essencial), não acredita nas eleições e na democracia caracterizada pela proteção dos direitos humanos e civis de seus cidadãos, caracterizando um patriotismo vazio e em favor de seus próprios interesses partidários, um slogan que comunica intenções que não correspondem com atos.

 

Quem poderá confirmar que o atual presidente realmente acredita em seu slogan? Talvez sim, talvez ele (ou seus assessores) tenham lançado o slogan por acreditarem nisso, ainda que cegamente. E por acreditar em seu slogan, ele até pode não ser um grande farsante! Bom, eu posso dizer que acredito em um poder cósmico e essa é minha crença pessoal. Ponto. Porém, esse cosmo foi uma experiência transformadora em mim? Afirmar que Deus está acima de todos, digo, reconhecer isso, não muda a posição em que Deus se encontra. A relevância do fato só existe quando ele passa a mudar a realidade daquele que acredita nisso e este se permite ser transformado.

 

É quase automático: comunique apenas o que um grupo de pessoas consegue processar e espera de você, informe que há consequências positivas para aquele grupo em decorrência de suas ações em favor do que for comunicado. Boom! Manipule seu comportamento. É exatamente isso que vejo hoje. Um comportamento completamente previsível, quando o discurso é manuseado com esse fim. Um comportamento difícil de acreditar que é possível, mas é real.

 

Lamentável é compreender que o estadista à frente desse slogan tem uma compreensão distorcida do Deus que ele decidiu enxertar em sua política e de Seu evangelho. Uma figura desprezível que deseja associar Deus, dono da soberania e magnitude, ao seu projetinho humano pessoal e, neste processo, arrastar tantos ao colapso.

 

No plano de Deus, devemos conhecê-lo e amá-lo de coração, alma, entendimento e força. Nossa própria vida depende de conhecermos a Deus e que Sua vida nos seja revelada ao conhecê-lo. Por isso, Ele esteve fisicamente com o homem; apesar de Senhor, foi servo e está com o homem a cada segundo, em espírito. Ao reconhecer, em política, que Deus está acima de tudo, a construção objetivada não passa de um signo autoritário-teocrático, um imperativo de força, uma manobra eleitoral covarde.

 

Quando criança, compreendi que havia amor em meus professores, na figura materna, nas figuras fraternas, na figura paterna, mesmo não sendo de sangue. Mais tarde, encontrei o amor de Deus em alguns bons líderes que tive, em amigos incondicionais, nas artes, na música, na dança, na literatura, na poesia e, sem dúvida, na natureza, especialmente com os animais. O amor de Deus me alcançou em inúmeros lugares por onde passei e, até hoje, ele me busca e me constrange. Ele me arrebata dos lugares de medo e de vergonha e me coloca em lugares de segurança e partilha com outros, mesmo que sejam completamente estranhos.


Como não tive nenhuma experiência pessoal com o atual presidente, só consigo descrevê-lo por comparação com as pessoas que eu realmente conheci. Sua personalidade vastamente publicada, suas falas, agenda pessoal e política me projetam imediatamente aos medos do passado, à ignomínia de ser alvo das acusações e reprovação, à ausência do amor de minhas professoras, de minha mãe, de minhas irmãs, meus amigos e de meus bons líderes na igreja. Ao levá-lo ao pensamento, algo que me deixa nauseado, eu não revivo as experiências únicas de pertencimento que vivi no Cristianismo, nas artes ou na natureza. Eu apenas me vejo exposto e alvo de chacota pública, pois revisito ações que não demonstraram um conhecimento ou uma relação com o Deus das Escrituras. Não vejo atos de misericórdia nem semelhança com o Deus bíblico. Vejo falta de empatia com a dor do Brasil, falta de amor e compaixão.

 

Não basta estar pronto para defender que Deus está acima de tudo e que o Brasil está acima de todos, esquecendo-se que o Brasil é seu povo e que, com Deus, não se brinca. A liderança genuinamente cristã que eu conheci sempre se dispôs a servir, o que é muito diferente de se sobrepor com ignorância.

 

Se o Brasil se rendesse à inteligência da terra, erguer-nos-íamos enraizados, como árvores. O Brasil sobreviveu um quadriênio amarrado em nós que seu povo mesmo deu. Ele lutou, solitário e confuso. Como crianças, recomeçamos, podemos cair e aprendemos pacientemente a confiar em nosso peso. Como disse Rilke, até um pássaro tem que fazer isso antes que ele possa voar (Livro de Horas: Poemas de Amor a Deus). Então, uma vez tendo tropeçado e caído, torço para que todos tenham aprendido com os laços. É hora de desatar esses nós e voar.

Tuesday, October 02, 2018

A Pantera




"Seu olhar contra o mover das barras
ficou tão cansado que não contem nada mais.
Para ele, parece haver milhares de barras
e por detrás das barras, mundo algum.

Ao caminhar em exíguos círculos sem fim,
o ritmo de seus suaves e firmes passos
é como uma dança em torno de um eixo,
na qual um desejo poderoso encontra-se imobilizado.

Somente de vez em quando,
as cortinas das pupilas se erguem, quietamente.
Uma imagem se adentra,
desce através da quietude tensionada de sua musculatura,
mergulha em seu coração e se esvai"

A pantera | Rainer Maria, Rilke
Paris, 1902


Neste poema, Rilke praticou o que ele chamava de {visão interior}, uma viagem fantástica desde a superfície ao coração de algo inanimado, de um objeto, como os animais que ele observava, aqui, uma pantera.

No processo, as percepções levavam a uma conexão emocional. Um detalhe importante é levar em consideração o ponto de vista do objeto (da pantera), podendo tanto humanizar coisas como tornar humanos em objetos.

No poema, Rilke demonstra que é possível se identificar com os animais, por terem instintos parecidos com os do homem. Homens e animais não compartilham uma língua comum, logo animais continuam sendo um mistério para nós. Diferente dos objetos inanimados, ao observar um animal, ele te observa também. O fitar de ambos os une e efetiva o envolvimento do observador.

A pantera observada foi definida somente em termos de sua prisão. No poema, ela se torna na liberdade que não possui. As barras se movem, o animal que as observa se tornou em jaula, em coisa. Finalmente, Rilke descreve os olhos da pantera, pelos quais imagens adentram seu ser, rumo ao centro do corpo e coração, ali são capturadas e consumidas para a eternidade.

Eu me sinto incomodado com as relações sustentadas pelas mídias. Elas passam por um processo semelhante. Humanizamos as mídias, com todas as mentiras e exacerbação do ser que trazem consigo e, no muito observar e nos adentrar nesse mundo, passamos a nos coisificar e a não ser mais nossa essência. A princípio nos aproximamos e observamos, pensamos dominá-las. Num piscar de olhos, a grande rede é quem nos observa e imprime comportamentos gélidos.

Estamos apenas tentando nos libertar da solidão mental, por meio de empatia?

Friday, July 13, 2018

Amar é uma pessoa


O amor é algo tênue
Não queremos desperdiçar fôlego
com o que consideramos desnecessário

O amor é algo tênue
Ninguém consegue ver
que, no recôndito do lar,
Estamos infelizes - Isso fica entre mim e você

O amor é algo tênue
Muitos para prover
Transformamos em arte o desmazelo com o que não queremos ver

O amor é algo tênue que tenta nos libertar
Sinto a vida se esvair neste cativeiro

O amor é algo tênue
gritando dentro de mim
Como uma sirene no auge da emergência

O amor é algo tênue (demais)
para que o mundo o perceba
E nos lembre que o coração
jamais abrigará nossos pesares

Cuide de meu amor, enquanto dorme esta noite
Cuide de meu amor, enquanto dorme esta noite

Um dia, em breve
Abriremos os olhos
Estilhaçaremos as janelas e voaremos

Um dia, em breve
Quando todas as palavras parecerem erradas
Seu coração baterá forte
E seguirá batendo

Skin & Bones | Inland (2013)
Jars Of Clay​


Alguém consegue viver sem isso? O contato humano cada vez mais escasso? Um sentimento tão forte (feito fraco) não pode ser apenas um sentimento ou uma ação. Ele está personificado nesta faixa, assim como a sabedoria foi personificada em Sister Mother, do Sixpence None the Richer.

O amor pode ser tanto quem exerce a ação como quem é objeto do amor, uma pessoa incorporada naquilo que o amor de fato significa, ações que fluem de amar o próximo, do amor Ágape, do amor no centro de tudo, do ser amor.

O amor tem que ser aspiração, o parentesco por que deveríamos anelar; amor como mãe, pai, avós, irmãos, filhos, primos, sobrinhos, netos, amigos. Não é uma teoria ou conceito apenas, não é ciência, nem filosofia. É alguém presente. A materialização do eu exercendo o chamado humano.

O amor personificado não espera exclusividade de tempo. Não posso incorporar o amor em tempo parcial, ele deve ser o condutor o tempo todo, mesmo quando não seguimos seus comandos. Alimente bons atos mas entenda que nem todos serão recebidos como atos de amor e nem sempre seremos capazes de conceber esses atos. Não se sinta frustrado.

Experimente ações simples como estar presente, escutar, tocar, abraçar. A linguagem é universal e ao mesmo tempo pode ser única, pessoal. Ao perceber que há uma diversidade de dialetos na personificação do amor, compreenderemos que ainda temos muito que aprender.

"Quando chega a morte, não é da nossa ternura que nos arrependemos: é da nossa severidade" ― George Eliot

Friday, May 25, 2018

VISTO AMERICANO BUSINESS/TOURISM (B1/B2) - NEGATIVA




Em 30 de junho de 2017, visitei o Consulado Americano no Rio de Janeiro, para entrevista de solicitação de renovação de meu visto americano de não imigrante, BUSINESS/TOURISM (B1/B2).

No ano passado, eu tinha planos de ir ao show de uma banda que eu acompanho há muitos anos, pois sempre fui muito fã do trabalho deles, o Jars of Clay, que não é novidade para ninguém. Em 2017, o Jars of Clay já estava passando pelo período de inatividade, fazendo apenas alguns shows isolados, além de cada membro atuar em projetos solos. Um dos shows que a banda faria naquele ano foi o Family Christmas, numa sexta-feira, 1 de dezembro, 2017 no Liberty Hall, Franklin, TN, motivo pelo qual eu, em minha entrevista, informei que ficaria na casa de um amigo que mora em Franklin, TN, americano, que possui visto brasileiro e já ficou em minha casa por 5 dias, na ocasião de sua segunda visita ao Brasil. Nada mais natural que visitar este mesmo amigo nos EUA.

Apesar de, naquele momento, eu contar com toda a documentação necessária que comprovasse meus vínculos com o Brasil e minha intenção de permanecer aqui, fui surpreendido com uma resposta negativa à minha solicitação de renovação do visto. Na entrevista, o cônsul me questionou a respeito de minhas viagens feitas aos EUA entre setembro de 2008 e maio de 2010, alegando que era óbvio que eu estava trabalhando nos EUA ilegalmente, a despeito dos comprovantes que eu tinha em mãos de que eu era funcionário da RITZ DO BRASIL entre 1999 e 2011, empresa que custeou todo o meu processo de solicitação de meu primeiro visto, com o objetivo de iniciar um projeto de uma joint-venture, da qual fui o principal ator naquele período, atuando em negócios para a empresa.

Em resumo, o cônsul ignorou completamente que eu fiz múltiplas entradas nos EUA como funcionário de uma empresa 100% brasileira, que iniciou uma joint com uma empresa americana. Ao contrário do que todos poderiam pensar, eu nunca fui remunerado em USD durante o período em que eu viajei pela RITZ DO BRASIL, nunca me aventurei a me envolver de qualquer maneira em atividades ilegais com vista a ganhar remunerações paralelas em dólar americano, ou sequer permaneci no país por mais tempo que o permitido pelo oficial de imigração, em minhas entradas. Vale destacar que a cada ida, a intenção de meu empregador era otimizar o investimento feito em passagens internacionais, de forma que o máximo possível de dias fossem utilizados em atividades pertinentes à joint-venture, como, por exemplo, treinamento de funcionários americanos, recebimento de materiais enviados pela RITZ DO BRASIL, assistência técnica e comercial aos clientes americanos, preparação de imagens e descrições técnicas em inglês para uso no catálogo da empresa que estava se formando a partir da união entre a RITZ e o profissional americano eleito como parceiro da RITZ. Dessa união nasceu a American Hot Line LLC.

A cada entrada nos EUA, a joint se responsabilizava por todas as minhas despesas em território americano, tais como estadia, transporte, alimentação e despesas pessoais. Eu nunca sofri nenhum tipo de preconceito pelos americanos, por me confundirem com imigrantes ilegais no país. Eu interagi com inúmeros cidadãos, sendo eles amigos pessoais, colegas de trabalho, fãs das mesmas bandas que sou fã, em várias cidades americanas. Participei de eventos e shows dessas bandas, ou seja, durante minha estadia, eu não tinha qualquer receio de me deslocar a pé, de carro, trem, avião ou ônibus no país, por medo de ser abordado e deportado como um criminoso, pois minha permanência no país estava justificada legal e juridicamente, não havendo nenhuma pendência em meu próprio país, ou compromisso, dos quais eu estivesse fugindo. Quando foi necessário solicitar uma extensão do período de 90 dias, para 180 dias, tudo foi feito com escritório competente de imigração americano, com advogados americanos, que atuaram de forma legal e obtiveram minha extensão, sem qualquer restrição.

Ou seja, em 2017, considero que o cônsul se equivocou ao me negar o visto, pois nada apontava para qualquer atividade ilícita de minha parte. Ele chegou a questionar o motivo de minhas idas a países como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Indonésia, com um tom tão sarcástico e questionador, como se viagens a esses países representassem um crime. O tom de dúvida chegou a tal nível, que ele chegou a questionar todas as minhas viagens já realizadas à Ásia, Oriente Médio e Europa também.

Eu mesmo fiz meu processo de 2017, sem auxílio de uma agência. Portanto, naquele momento, comecei a me questionar se eu estava mal preparado, mas jamais imaginei que minha história pura e simples, sobre as oportunidades profissionais que eu tive, fosse pesar contra mim, em uma entrevista de solicitação de renovação de meu visto americano.

Por fim, o cônsul alternou de português para inglês e me envolveu em uma série de perguntas sobre minha idoneidade pessoal e profissional. Deixei o consulado com a sensação de que minha experiência como funcionário da Ritz do Brasil apenas me deixou com um enorme prejuízo, pois a empresa já nem mesmo se chama Ritz do Brasil e continua operando normalmente em suas atividades. Seus antigos donos continuam atuando normalmente em suas outras atividades, gozando de seus vistos americanos, provavelmente renovados sem qualquer questionamento, assim como os americanos com quem interagi no campo profissional, eles continuam vivendo suas vidas normalmente, sem sequer sentir que minha presença por lá surtira qualquer efeito em suas rotinas.

Bom, muitos deles nunca sequer desejaram sair do país e aqueles que saíram e tiveram um visto brasileiro emitido em seu favor continuam aptos a visitar meu país normalmente. Já o histórico consular sobre minha pessoa... o que será que está escrito a meu respeito naquela tela que não temos nem acesso ou vaga informação sobre qual é a suspeita sobre mim?

Ao desferir mecanicamente a frase: "Infelizmente o senhor não está elegível a receber um visto americano, neste momento", este profissional robotizado me entregou a bendita carta que, acredita-se, nos tranquiliza ao dar informações sobre você e muitos outros brasileiros que tiveram seus pedidos negados que nem são verdadeiras. A carta simplesmente informava que eu não comprovei vínculos com o Brasil o suficiente, mesmo tendo mostrado provas bastante claras de que eu não tinha nenhuma intenção de me mudar para os EUA (discurso batido e bem ultrapassado). Se eu tivesse essa intenção, eu o teria feito em 2010, quando eu tinha motivos fortes para me mudar para lá, mas não o fiz. Abri mão de minha suposta felicidade e retornei ao Brasil com o belo discurso de que eu não pisaria nos EUA ilegalmente, ou seja, se tem alguém que nunca desejou fazer algo errado, essa pessoa SOU EU.

Ao retornar para o Brasil de minha última viagem a trabalho aos EUA, em maio de 2010, chateado com a empresa americana que não cumpriu suas promessas feitas no âmbito individual, após quase dois anos de minha dedicação 100% ao projeto, eu estava determinado a não entregar mais de bandeja meus conhecimentos à joint. Cheguei a ir aos EUA a passeio, viagem 100% custeada por mim mesmo. Nem assim desejei permanecer ali ilegalmente. Só posso imaginar quantas pessoas que tiveram seus vistos emitidos em meio a tantos subterfúgios paralelos devem ter ficado no país como imigrante ilegal. Todo mundo conhece um brasileiro ilegal nos EUA, nenhum deles teria sido eu.

De volta à carta tranquilizadora... Foi-me entregue uma carta NÃO ASSINADA que acreditam explicar as razões para a negação. Frustrado e auto-investigativo, quase aceitando que eu, de fato, não podia expressar documentalmente o que estava em minha cabeça (a melhor das intenções), talvez tenha concordado que fui ingênuo, porém algumas raivas latejavam em minha cabeça, como por exemplo a realidade de uma logística horrorosa e mafiosa do lado de fora do consulado, para reter seus bens por 30 minutos, cobrando valores abusivos. Uma máfia! É uma vergonha perceber que o que está sendo combatido dentro do consulado é alimentado cada vez mais do lado de fora: a esperteza ardilosa do homem brasileiro abusando de outro brasileiro. Outro aspecto revoltante é a tarifa paga ao consulado e os gastos feitos com viagem, passagens, alimentação e tudo mais, para uma entrevista que pode se esvair facilmente no ar, com o não de um cônsul que dormiu mal no dia.

A carta entregue pelo cônsul acredita explicar o que é necessário fazer ou apresentar para se qualificar para o visto, porém tudo aquilo ali é conhecido por todos, nada é novidade. Em resumo, a razão para a negação é que eu não demonstrei ter os laços que me obriguem a voltar para o Brasil depois de viajar para os Estados Unidos. O redator desta carta não assinada (provavelmente eu esteja me referindo ao governo americano) prova ser tão mecânico quanto foi o cônsul de meu atendimento, treinado para ser um robô em sua maneira de estudar, analisar e pensar sobre a história de um candidato. Ou seja, estamos falando de um ser humano que tem totais condições de errar, ocupando um cargo importante, cujas atribuições incluem: fornecer passaporte a cidadãos americanos ou emitir vistos para cidadãos estrangeiros visitarem, estudarem e trabalharem nos Estados Unidos. Além de coordenar programas comerciais, de informação, educação e intercâmbio para desenvolver parceiros de negócios e clientes potenciais para empresas dos EUA, entre outras atividades como trabalhar com a mídia e entidades públicas para explicar a política dos EUA, incentivar intercâmbios acadêmicos, científicos e artísticos. Tudo isso e muito mais, mas um cônsul americano é treinado para deliberar sobre sua intenção mais íntima. Você é elegível ou você é inelegível a ter um visto de turismo/negócios.

Quantas pessoas afirmam que tudo que eles querem ouvir é "vou à Disney" ou "vou a Nova Iorque"; Pois bem, eu nunca tive interesse em ir a Nova Iorque em minhas visitas e, francamente, NUNCA tive interesse em Disney e não seria hoje que eu viria a ter. Ou seja, essa mente brilhante que deveria ser um facilitador intelectual apenas consegue se comportar como uma máquina programada. Chega a ser hilário ouvir um adulto nesta posição indagando outro adulto sobre como ele pretende custear sua viagem aos EUA, um lugar em que os hotéis e custos de transporte são até inferiores aos que nós pagamos no Brasil. Sem falar no custo de junk food e preço dos objetos de desejo dos coleguinhas brasileiros, ou seja, que desespero é este para saber como um brasileiro vai custear sua viagem? Já não está mais que comprovado que um brasileiro é um bicho gastador, talvez um dos poucos no mundo que tem como dividir uma fatura de cartão de crédito em 12x sem juros e, se mesmo assim não pagar, de uma forma ou outra as empresas de cartão de crédito assumiram o risco de emitir cartões dentro deste país?

Não estou falando que eu farei/ faria isso, ou que todo brasileiro precisa dividir uma fatura de cartão, mas isso é tranquilo para um brasileiro em viagem ao exterior, difícil mesmo é ter que fingir cordialidade do momento em que você entra numa fila de um consulado cheio de robôs que não sabem nem se estão em São Paulo ou no Rio de Janeiro e que, certamente, devem ter dúvida se a língua que aprenderam é português ou espanhol. Todo esse espetáculo circense dentro dos limites de um território considerado americano.

Gostaria apenas de acreditar que há brasileiros que não aceitam tal tratamento de desdém que, como eu, não pretendem continuar no patamar de cachorro ressentido, por não saber minha identidade. O conteúdo daquela carta diz muito sobre o que o governo americano pensa de nós e a razão para seus oficiais engraçadinhos com sorrisos falsos sempre terem pressa para entregá-las às pessoas, sem a devida diligência. Após a entrega da carta, a sensação é de que a janela se fecha em sua cara e que emitir qualquer palavra é perda de tempo. Após receber a carta, eu perguntei ao cônsul "Tem certeza de que nem vai ler a carta de UM de meus empregadores?" A resposta foi "Não, pois não vai te ajudar em nada". 

Pensei: "Obrigado aos EUA por desdenharem todos os gastos que eu tive, meu tempo investido, desde quando iniciei o preenchimento daquele formulário ridículo, meu cansaço vindo ao Rio de Janeiro em tempo record, o frio que passei do lado de fora, a raiva que fui obrigado a passar naquela fila, os sorrisos amarelos que tive que emitir desde a hora que cheguei, o medo de piscar e ser considerado um criminoso e por fazer com que eu me sinta, neste momento, mais indigno que fezes de mosca varejeira. Muito obrigado, mesmo vocês nem olhando mais em minha cara, enquanto reúno toda essa papelada esparramada neste balcão, humilhado, sem coragem de sequer olhar para trás e ser ridicularizado pelos conterrâneos brasileiros, pois depois de uma paulada como essa, o universo ainda deve me defecar por algum orifício anorretal como o daquele cônsul americano que acaba de me humilhar."

Qual é o mecanismo da função do cônsul/ oficial nas entrevistas? É puramente econômico e baseado em preconceito. Eles desejam ser pagos e serão pagos independentemente de quantos SIMs e NÃOs emitirem naquela semana e nós estamos contribuindo com o pagamento de cada um deles.

Voltei a Belo Horizonte, ergui a cabeça e pensei ainda ser possível renovar meu visto no futuro. Fiquei cada vez mais triste à medida que a data do show se aproximava. Até mesmo o Jars of Clay se manifestou, lamentando o ocorrido, pois compartilhei com a banda a experiência que me impedia de ir ver o show deles no ano passado.

Este ano a história mudou...

Fui abordado com a oportunidade de ir aos EUA com o diretor de uma empresa para quem presto consultoria de Relações Internacionais. Estudei o caso, tudo apontava para a viabilidade de uma visita e meu envolvimento estava no cerne do projeto. Meu cliente representa um fabricante americano de equipamentos. Sou o responsável por cada projeto e venda dos equipamentos às empresas e universidades brasileiras. Faço o acompanhamento dos projetos até o recebimento da comissão na conta de meu cliente, em R$, depositado pelo banco / corretor de câmbio. Fechei a venda de um equipamento de valor alto, cuja comissão é considerável, o que levou a diretoria a concordar com uma visita às premissas do fabricante.

Então, tomei a decisão de me recandidatar, pois a carta deixa claro que isso pode ser feito a qualquer momento. Passados 10 meses da última tentativa e com respaldo de uma parceria entre empresas, pensei estar preparado para encarar o processo novamente. Então reiniciei o processo, desta vez com o suporte de uma agência de turismo. Foram quase 4 meses providenciando documentos de toda sorte, além do preenchimento do formulário D-160, com auxílio do agente. Foram pagas as taxas do consulado e da agência, o que ficou em média R$900,00. Aguardei com paciência para marcar uma data conveniente para minha viagem. Visto que tenho MUITOS compromissos de serviço em Belo Horizonte e região, eu não posso me ausentar por muito tempo.

Este ano optei por tentar em São Paulo, pois minha irmã mora lá. Mesmo assim, eu iria à noite, faria a entrevista de manhã e voltaria no mesmo dia, para meus compromissos com aulas de inglês, a partir das 18h. Minha irmã insistiu que eu fosse num sábado, para aproveitar o final de semana com ela, pois a entrevista poderia ser na segunda-feira. Concordei e fiz os agendamentos. Na sexta-feira anterior à entrevista em São Paulo, eu me apresentei ao CASV em Belo Horizonte, para a foto e impressões digitais. Senti uma lufada de esperança de que tudo correria bem, quando a funcionária do CASV me afirmou que meu passaporte seria retornado através deles. Mal sabia ela que nada disso aconteceria, após o veredicto da cônsul americana.

No sábado à tarde, iniciei minha viagem. Tentei relaxar, aproveitando o final de semana que foi super agradável. Era meu aniversário no dia, portanto celebrei com minha irmã e meu cunhado. Tudo me preparou para ficar menos tenso no momento da entrevista, no dia 21 de maio. Pela manhã, bem cedo, tomei um Uber e cheguei com antecedência ao consulado. Todas as pessoas com quem eu conversava também acreditavam que tudo daria certo. Com esta certeza, ingênuo demais, entrei na fila grande que estava formada do lado de fora. Rapidamente cheguei ao portão, meu passaporte e confirmação de preenchimento do D-160 foram conferidos por 2 pessoas em locais diferentes, fui a uma primeira triagem, uma terceira pessoa conferiu os documentos e questionou se meu pedido de visto era a turismo e eu respondi que era a negócios, ele uniu meus dois passaportes com um elástico e pediu para não removê-lo.

Segui para o procedimento de segurança, mais uma fila que estava pequena e era organizada por dois seguranças brasileiros. Ao verificarem todos os meus pertences, visto que eu estava com o celular, tive que sair do consulado, deixar o celular em um guarda-volumes que fica em uma espécie de barzinho em frente ao Consulado (paguei R$20,00) e retornei àquela fila do início, repetindo quase todo o processo interno. Desta vez, a fila da segurança estava 3 vezes maior e demorou bem mais para chegar à revista dos pertences, porém, tudo estava ok e passei. Fui para a fila das entrevistas. Uma quarta pessoa conferiu meu passaporte e confirmação. Depois disso, esperei aproximadamente 20mins até chegar minha vez. Naquele ponto, é possível escutar as entrevistas, pois alguns dos oficiais falam bem alto. O que não pude deixar de ouvir foi a conversa entre a cônsul que me atenderia e a candidata antes de mim, que foi mais ou menos assim:

O: Oficial
C: Candidata

O: Bom dia.
C: Bom dia.
O: Para onde você vai viajar?
C: Então... não tenho ainda um lugar. Vou ao México e não tinha certeza se eu ia precisar de uma conexão nos EUA.
O: Você vai ao México quando?
C: (respondeu baixinho)
O: O que você faz?
C: Eu me formei em Administração e trabalho como supervisora de vendas.
O: Você mora com seus pais?
C: Sim.
O: O que sua mãe faz?
C: Ela é professora.
O: O que o seu pai faz?
C: Ele é autônomo.
O: Ele trabalha com o quê?
C: Ele vende veneno.

Houve risos.

C: Sabe restaurantes? É para DE-TE-TI-ZA-ÇÃO, sabe?

(sim, ela disse pausadamente e usou a palavra deTEtização)

O: Mmmm.
C: ...

E a candidata saiu feliz com o visto 😒.

Fui chamado à frente e cumprimentei a oficial. Ela perguntou para onde eu iria, o motivo da viagem, o que eu fazia, atividades específicas que eu faria na viagem. Respondi a todas as perguntas de forma clara, confiante e objetiva. Quando respondi sobre minha formação e minha profissão, ela anotou tudo e, minutos depois, disse que não entendeu que tipo de formação / profissão eram as minhas (Relações Internacionais, atuando como consultor de Relações Internacionais e Comércio Exterior). Tentei ser mais específico, informando que eu era responsável pelas importações e exportações de equipamentos da empresa. Tentei ser mais específico ainda e expliquei em detalhes o motivo desta visita, que era inspecionar, juntamente com o diretor da empresa, o equipamento vendido para a PUC-Rio. Informei ainda que, além das funções que me cabem, eu daria suporte linguístico ao diretor da empresa, que não consegue se comunicar em inglês com os parceiros americanos.

Minutos depois, ela questionou sobre minha entrevista no Rio de Janeiro e expliquei que, naquele ano, eu tinha a intenção de ir a um show do Jars of Clay, de quem sou muito fã. Ela sorriu. Mas em 2018, minha visita seria estritamente para fins de negócio. Pouco tempo depois, ela me perguntou o que havia mudado do ano passado para este ano, apresentei as cartas assinadas por meu cliente e seu parceiro americano, porém a cônsul nem mesmo pediu para vê-las de perto, bem como nenhum dos demais documentos que eu tinha em meu poder, a saber:

 - Carta convite do parceiro americano;
 - Carta custeio da empresa brasileira;
 - Declaração da empresa brasileira informando o motivo da viagem;
 - Meu contrato de prestação de serviço (registrado) com a empresa brasileira;
 - Declaração e holerites da escola de inglês em que trabalho;
 - Outros comprovantes de prestação de serviço;
 - Documentação de meu apartamento e de meu carro;
 - Meu CNPJ de MEI, com parcelas pagas em dia;
 - Declaração de IR de 2017;
 - Passaporte válido com carimbos de outras viagens;
 - Passaporte antigo com o primeiro visto e carimbos de viagens aos EUA e outros países;
 - Extrato bancário;
 - Carteira de trabalho;



Quem nunca tentou o processo deve se perguntar o motivo para tantos documentos, além de todas as informações solicitadas no formulário. A carta que me foi entregue no Rio de Janeiro explicava o motivo da recusa no ano passado e basicamente informa que, apensar de cada classificação de visto de não imigrante ter seus requisitos exclusivos, uma exigência comum em todas as categorias é que o requerente deve demonstrar que tem "residência em país estrangeiro que não tem intenção de abandonar". Espera-se que os candidatos cumpram com esta exigência, demonstrando que têm laços fortes que indicam que retornarão ao país após uma visita aos Estados Unidos. Tais laços incluem aspectos profissionais, acadêmicos, familiares ou sociais.

Além de toda a documentação comprobatória, havia minha disposição em informar tudo que me perguntaram e declarar, ali, pessoalmente, o melhor de minha intenção em obter um visto americano, já não mais por motivos pessoais, mas por questões profissionais. Infelizmente, nada disso funcionou, nem os votos positivos que recebi de tantas pessoas, amigos e familiares.

A cônsul me pediu para colocar os dedos de minha mão esquerda sobre o leitor, apenas para finalmente me entregar a carta padrão e repetir a frase fria "infelizmente, você não está elegível a receber um visto americano, neste momento". A expressão em meu rosto quase não mudou visualmente, mas por dentro, foram muitos os questionamentos sobre essa decisão. Agradeci e me retirei, mais uma vez, sem coragem de olhar para trás.

O que a oficial consular pediu para ver? Apenas meus passaportes. O que ela tanto lia no monitor? Um histórico de quatro entradas no país a negócios, pois eu sempre declarei que era por esse motivo, além de uma quinta entrada, a passeio. O que tal informação tem a dizer contra mim? Como já comentei no início desta carta, nunca me envolvi em nenhum tipo de atividade ilícita, em visita aos EUA. Eu tinha em mãos toda a documentação de suporte indicativa de minha situação atual e minha real necessidade de viajar aos EUA, em julho deste ano. Ela não quis ver nada. Quando questionou o que mudou desde o ano passado, ainda pedi que confirmasse se a mudança que ela esperava era no campo profissional e então reportei, além de a própria natureza de minha visita ter mudado.

Se não estava claro para os oficiais de imigração que me receberam 5 vezes no país, por que me concederam entradas de 90 dias no passado? Está errado utilizar o período de 90 dias concedido legalmente pelos oficiais de imigração, na chegada ao país? A oficial me pareceu ser a extensão de uma máquina programada que, independentemente do que se conversa ali, sua inteligência não pareceu exceder a de um smart phone. Os dados exibidos de forma cartesiana naquele monitor e a análise preconceituosa dos oficiais me renderam uma decisão sem a menor explicação e sem uma base aceitável. Não está claro o motivo pelo qual o meu visto foi negado novamente e não há meios para se questionar isso. Se não sou bem-vindo aos EUA, que não aceitem nem que eu inicie um processo de solicitação de visto, pois o tempo e o dinheiro desperdiçados no processo não vieram de graça e ingressar em seu país de forma ilegal nunca fez parte de minha agenda.

Apesar de não me surpreender com a ignorância da maioria das pessoas sobre o que um profissional de relações internacionais exerce em uma empresa, é lamentável que uma cônsul AMERICANA não tenha uma noção mínima disso, o que me faz questionar quem são as pessoas selecionadas a nos confrontar sobre quem somos e o que pretendemos fazer com nossas vidas. Eu gostaria de poder usar uma palavra melhor, mas racismo e preconceito são as únicas que vem a minha mente. Atualização: "Burrice" acaba de me ocorrer.

Estou profundamente decepcionado com a ignorância americana e uso indevido da discrição destilados por esses dois cônsules e sua incapacidade de análise e julgamento, por malbaratar suas credenciais e valores democráticos que até os Estados Unidos detém e fingem propagar em torno do mundo, mas, sobretudo, decepcionado com a falta de sinceridade, pois a carta que nos entregam apenas demonstra desrespeito e desdém por detrás dela.

Texto no ReclameAqui

Friday, January 26, 2018

Luz Desconfortável



Em tempos de suposta-plena-feliz-positividade-Instagram, está escassa a coragem para assumir que somos frágeis e carecemos.

Hoje trago à memória que o Cristianismo não é recomendado para quem busca uma religião em que se sinta confortável, feliz. Uma garrafa de vinho pode fazer isso!

Qual criança (ou adulto) não teve medo do escuro? É possível perdoar quem tenha medo do que não vê. Tragédia da vida mesmo é ter medo da Luz.

Crédito para C.S. Lewis e Aristocles Plato, filho de Ariston.

Tuesday, May 09, 2017

Eu nasci para me irritar com clichés



Neste vídeo (link) o Hanson, uma de minhas bandas preferidas, toca a faixa nova "I was born", sua mais nova produção comercial de positividade, uma carona n'uma onda talvez filosófica do pre-determinismo, implicando que tudo que fazemos é fruto de sermos agentes autônomos de nossos destinos.

Porta-vozes do resto do mundo, ou não, fica difícil se posicionar com relação a uma letra toda cantada na 1ª pessoa do singular, mas intencionada para responder por uma legião de seguidores, principalmente quando todo mundo se apropriou facilmente da mensagem, que respinga alto-astral em quase 4 minutos de música, deixando pouca margem para a propensão humana ao erro e, com frequência, a nos decepcionarmos e fracassarmos, comumente adotando princípios otimistas até demais (estímulos Polianistas), como os que dominam redes sociais, posts, statuses, stories, snaps etc, em forma de fotos, vídeos, checkins e tudo mais fugaz, raso e vazio de verdades humanas.


Musicalmente, a faixa cumpre o que deve ter sido o objetivo de uma música nada pungente, algo como uma trilha encontrada em qualquer editorial de programas cristãos de acampamento juvenil nos EUA. Ou um comercial do Tomorrow Land, se fosse na terra da música pop. Ou qualquer música deste mix. E o problema está justamente nisso, Hanson não deveria se enquadrar na categoria de "qualquer música", afinal são 20 anos de carreira, ainda que na sombra do esquecimento, já há mais de uma década e meia.

Posso afirmar isso, pois conheço o trabalho da banda a fundo e eles frequentemente acertam, a despeito da indústria e tendências anti-originalidade.

Na sequência, eles tocam MMMBop, o pontapé da carreira, da trajetória de sucesso que começou 20 anos atrás. Não consigo entender como "I was born" conecta o novo momento do Hanson com a banda que estreou com MMMBop. É a tentativa mais insossa de remontar ao começo de uma carreira admirável. Principalmente, quando, no mesmo vídeo, o Zac explica como "é possível ir mais profundo no psique da letra de MMMBop que, na verdade, trata-se do psique de crianças passando por rejeição, mas tendo a chance de ver seus sonhos se tornarem uma realidade, convivendo com as consequência de ambos, ao mesmo tempo." Além de ter sido chamada de "sombria e inebriante". Ou seja, nenhuma mensagem exacerbada de puro positivismo, como as que encontramos em canecas decoradas na Imaginarium e duty-frees pelo mundo, pode se comparar com essa noção profunda da letra de MMMBop, que na verdade, segundo o Isaac, faz mais sentido se cantada no ritmo dramático original.

A próxima faixa é "Thinking 'bout somethin'", ótima faixa, explicada aqui. Este post por si só já deixa claro como a banda é relevante para a música americana e mundial. O host da Billboard consegue ser superficial o bastante com o comentário "Que incrível!" - quando na verdade, não importa, a música é boa mesmo, ainda que esta versão ao vivo tenha sido pobre e deprimente, para sua realidade de riqueza instrumental.

Veja o clipe com a letra de "I was born":


Veja o clipe oficial, lançado em 26 de maio.




Bom, foi um desabafo enquanto espero os shows da turnê no Brasil, este ano.

23 de agosto - Rio de Janeiro
24 de agosto - Belo Horizonte
25 de agosto - São Paulo