
Continuando a série, hoje estou postando a explicação de "Heaven", do cd "Long Fall Back to Earth", feita pelo Dan Haseltine, vocalista da banda. Fico sem palavras com a forma como ele sabe falar a verdade. O trabalho do Jars of Clay não é mesmo algo a ser apreciado superficialmente. Você até poderia escolher assim, mas perderia 90% do que eles representam como artistas e pessoas. Essa banda nunca se tratou exclusivamente do musical para mim. Em toda a minha imperfeição, eles me movem, me comovem, me desafiam e me chocam como ninguém consegue.Ouça a música aqui.
"Eu considero que “Heaven" foi um triunfo criativo. Não que ela seja melhor que outras canções que co-escrevi. É simplesmente por ser uma canção que lida com algo sobre o qual nunca havia escrito antes no Jars of Clay.
"The Long Fall Back to Earth" é um cd sobre relacionamentos. Ele foi escrito em uma época em que todos parecíamos atingir muralhas significantes em nossos casamentos e amizades. Descobrimos que na maioria dos dias, o amor não era bem o que pensamos ser. Era algo mais potente, devastador, curador e assustador.
Passei pela experiência de estar com alguns amigos que estavam trilhando com dificuldades seu caminho de volta à sanidade relacional e na maioria das vezes, nada estava funcionando. Os aconselhamentos e as mudanças na comunicação não representaram as balas de prata que precisavam para destruir o lobo presente, que estava devorando cada restinho de compaixão e empatia que podiam reunir.
As palavras que não paravam de vir a minha mente eram 'algumas pessoas são simplesmente tóxicas umas com as outras'. Como lutar por seu próprio casamento enquanto percebe que outros rapidamente estão perdendo essa luta?
Como encontrar a força que precisamos para caminhar adiante, rumo a pessoas que mais têm o potencial de te ferir? Os relacionamentos são complicados e ainda assim, há recompensas para aqueles que os consideram de forma séria e cuidadosa.
Acredito que podemos considerar que essas estações acontecem para todo mundo. O casamento é um crisol. Ele não nos permite viver em total diplomacia, sendo como somos. A maioria de nós está muito presa ao amor, para perceber isso em meio ao noivado e aconselhamento pré-marital. Temos uma visão muito romatizada dos votos do casamento e isso remove a nossa habilidade de prevermos o que acontecerá no futuro.
Quando eu disse as palavras “na doença e na saúde… na abundância ou na escassez… na pobreza ou na riqueza” eu não estava pensando na pior faceta da alma e do coração humanos. Eu pensava em trazer sopa e mais lençóis. Pensava que discutiríamos sobre qual filme queríamos ver. Não pensei que significaria ter que morrer totalmente para mim mesmo, ou que o casamento era o meio pelo qual Deus poderia pegar o pior em mim e o expor, de modo que eu tivesse que lidar com aquilo. Logo, com toda a complexidade relacional em volta de mim, sem falar na minha própria, decidimos escrever um cd que falasse abertamente sobre o nosso coração e interações humanas.
Há canções no cd que lidam com o relacionamento de pai para filho. Outras lidam com traição e a arte de criar pedidos genuínos de perdão. Outras lidam com a dualidade do coração e nossa inclinação para querer e negar a intimidade no relacionamento. Há canções românticas que falam aos anseios de nossos corações, na inocência do cortejo. Há ainda canções sobre como é difícil romper barreiras e se sentir perto de verdade de alguém.
Logo, como uma música sobre o céu poderia se encaixar em um cd como este? Não poderia. Tínhamos um objetivo específico para esse cd e de forma alguma arruinaríamos esse objetivo, colocando uma música pomposa sobre o céu no meio da combinação. Também me desafiei a escrever letras que eram totalmente orgânicas e humanas. Não usaria nenhuma linguagem grandiosamente espiritual.
No meio de tantas guerras diárias que estavam ocorrendo na vida de meus amigos e sob meu próprio teto, seria nada mais que um insulto usar uma linguagem vaga e descartável, própria de uma religião desincorporado e cultura adorativa, para falar de amor e ódio, divórcio e frustração, da forma como eu queria.
Portanto, se “Heaven” não fala sobre o céu, do que ela fala? Sem dúvida é uma música sobre intimidade, mas seria mais seguro dizer que ela é uma música sobre sexo.
Não somos a primeira banda cristã a escrever sobre sexo, mas talvez sejamos a primeira que teve sua música sobre o tema, escolhida pelas rádios cristãs como single. Nunca tivemos a intenção de enganar ninguém. No entanto, foi incrível “Closer”, do mesmo cd, não ter sido escolhida como single, por usar a palavra “pele” na letra. Fiquei surpreso ao ver que essa palavra significaria tanto risco e que seria considerada ir longe demais. Fiquei frustrado por nossa cultura cristã ainda ter a necessidade de sufocar qualquer senso de verdadeira humanidade de nossa arte e expressões musicais. Fiquei surpreso por uma música como “Forgive Me” não ter sido usada como single nos EUA, por ser muito forte e sombria. No entanto, a música que a rádio estava disposta a tocar, fora exatamente sobre o assunto que é MAIS tabu na cultura cristã. Toda vez que ela tocava no rádio eu ria.
Debatemos quanto à letra de “Heaven” por um bom tempo. Ela fala do dom de conhecer alguém completamente. É uma canção que fala sobre quão difícil é remover todas as distrações do mundo, todas as vozes e intrusões que penetram em um diálogo tão importante. Ela não usou nenhuma linguagem sexual. Na verdade, quando estávamos gravando “Heaven”, eu me lembrava do Duran Duran, mas eram músicas como “Wild Boys”, “Rio” e “New Moon On Monday”, a que fizemos referência. Essas nem eram as músicas mais carregadas de conteúdo sexual. Falar de sexualidade como uma experiência que mais se aproxima do tipo de intimidade que conheceríamos com nosso Deus é arriscado e intoxicante.
Novamente prefiro não detalhar verso por verso, mas posso dizer que você certamente vai ouvir algo diferente da próxima vez que ouvir essa canção.
Sexo não é algo sem custo. Não é descartável. Não é errado. Nem contra as regras. Não é vergonhoso. Logo, visto que alguns vão ler isso e usá-lo como desculpa para tirar o cd das lojas (espero já estarmos muito além da cultura que reagiu tão mal à música “Love Cocoon” do Vigilants of Love’s), espero que essa música sirva como um convite a expandir os limites daquilo que os cristãos podem e deveriam escrever a respeito e expressar em nossa música, tanto dentro como fora da igreja. Eu me pergunto quantas rádios cristãs que tocaram “Heaven” e gostaram dela, teriam escolhido não fazer isso, se soubessem o que ela falava de fato."
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Vejam a letra:
Heaven (Céu)
Go undercover, we drop from the screens (Vamos para o esconderijo, caímos das telas)
We're hunters and lions, we are submarines (Somos caçadores e leões, somos como submarinos)
Under the surface, slip through the wires (abaixo da superfície, deslizamos pelos fios)
Decipher the code words, disable the liars (deciframos os códigos, desabilitamos os mentirosos)
Refrão:
And find, glowing on the inside (E o encontre a brilhar por dentro)
What's growing on the inside (ele que se expande por dentro)
Heaven's not that far (o céu não está tão longe assim)
glowing on the inside (está brilhando por dentro)
Showing on the inside (exposto por dentro)
It's growing where we are (crescendo neste lugar em que estamos)
We shatter devices, exit the stage (Destruímos objetos, saímos do palco)
We stop masquerading, to rattle the cage (paramos de finjir, para fazer uma algazarra na prisão)
We face every searchlight at places we hide (encaramos os holofotes nos lugares onde nos escondemos)
We dress up for Eden, the gates open wide (nos preparamos para o Éden, os portões estão escancarados
(Refrão)
(We are, we are, we are) (Nós somos, nós somos, nós somos)
We're hunters and lions (Somos caçadores e leões)
We go undercover, we cover, we cover (Vamos para os esconderijos, damos cobertura, damos cobertura)