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Sunday, September 21, 2025

Um comentário "ao extremismo"


Fascista
(adj. e subst.): pessoa, movimento ou atitude ligada ao fascismo, ideologia política autoritária e ultranacionalista que surgiu no início do século XX, caracterizada pela centralização do poder, repressão da oposição e exaltação da coletividade nacional acima das liberdades individuais.

Que tal o uso de falas com recortes isolados do todo sobre algo com o que se está em total desacordo?

Do prisma dos direitos humanos e das liberdades individuais, entende-se que toda pessoa tem direito de criticar modelos sociais, políticos, religiosos ou familiares. Questionar o modelo de família conservador predominante em 2025 no Brasil, ou afirmar que não acredita nele, está dentro do campo legítimo da liberdade de expressão.

Quanto à liberdade de consciência e crença, os direitos humanos e a Constituição Brasileira garantem que ninguém pode ser obrigado a professar uma visão religiosa ou moral específica sobre “família”.

No que diz respeito aos limites da liberdade de expressão, essa liberdade não é absoluta. O direito internacional e a Constituição restringem discursos que incitam ódio, discriminação ou violência contra grupos sociais.

Se alguém disser: “Eu não acredito nesse modelo de família e gostaria que ele deixasse de existir na sociedade”, sua fala está dentro da liberdade crítica; mas se disser: “Vou perseguir, atacar ou impedir que essas famílias existam”, isso configuraria ameaça ou incitação à violência, podendo ser responsabilizado.

Do ponto de vista dos direitos humanos, alguém não deveria ser condenado por discordar ou até desejar simbolicamente o “fim” de um modelo de família, enquanto isso for opinião ou manifesto político/filosófico, sem violência ou discriminação direta.

Criticar e rejeitar um modelo social ou familiar é um direito protegido. Incitar perseguição ou violência contra quem vive nesse modelo extrapola a liberdade e pode justificar sanção legal.

Existem muitos subgrupos no Brasil tentando matar outros subgrupos de pessoas. E ambos estão matando seus alvos fora do contexto político, bem como matando inocentes. O que está sendo feito a respeito da violência no Brasil? Quem são os mártires do Brasil?

Um grupo distorce palavras para convencer seus ouvintes de que há um complô esquerdista por classificar direitistas como extremistas, para, então, matá-los. Lembrem-se: já tem morte demais acontecendo paralelamente, fora de qualquer rivalidade política, mas as lideranças estão desesperadas por apontar que seu rival quer matá-los.


Não há um antídoto para “a violência começa com a linguagem” que possa ser usado de um lado da disputa e não do outro, quando o uso da linguagem que incita a violência é uma realidade de todos os lados. As palavras são munição que podem sentenciar morte de ambas as partes.

Sim, concordo que a realidade social e cognitiva é construída por interações humanas (símbolos, palavras, normas e narrativas). A linguagem não apenas descreve a realidade, ela também a cria e a molda. Palavras carregam valores, preconceitos e normas sociais que influenciam a forma como as pessoas percebem e agem no mundo.

Ao professar que um grupo é “inferior” ou uma “ameaça” (90% dos comentários em redes sociais?), isso pode normalizar a discriminação antes mesmo que atos físicos ocorram. Existem formas de dominação exercidas através da linguagem e símbolos que moldam o pensamento e restringem escolhas sem uso de força física. Do ponto de vista construtivista, a linguagem que cria categorias de exclusão, desumanização ou ódio funciona como um primeiro passo da violência real. Discurso, rótulos e narrativas podem preparar o terreno para ações violentas.

Nunca foi e nunca será aceitável comemorar ou matar alguém por causa de suas ideias. Nem mais nem menos normal que o “ódio” e a “intolerância” a outros indivíduos por serem quem são. Em 2023, o Brasil registrou 230 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+, conforme dados do Grupo Gay da Bahia (GGB) e do Observatório de Mortes e Violências contra LGBTI+ no Brasil. Dessas, 184 foram assassinatos, 18 suicídios e 28 outras causas relacionadas à intolerância e violência estrutural. O Brasil se destaca como um dos países com maior taxa de violência contra a população LGBTQIA+. A maioria das vítimas são pessoas trans, especialmente mulheres trans e travestis. Além disso, o país lidera o ranking mundial de homicídios de pessoas trans, com 33% dos casos registrados globalmente. Essa sim é uma problemática nossa!



A história narra episódios como a Revolução Russa de 1917 e o regime de Stalin, durante os quais opositores políticos eram perseguidos, presos ou executados. Citam-se ainda movimentos guerrilheiros de esquerda na América Latina (anos 1960–1980), que, embora combatendo regimes autoritários, às vezes usaram a violência contra indivíduos considerados “inimigos da revolução”. Nesses casos, a “pergunta” implícita seria: como justificar ou normalizar a eliminação de inimigos ideológicos para consolidar um projeto político? É uma interpretação histórica comum em discursos que criticam os excessos da esquerda revolucionária. Qual o intento de recorrer a um paralelo entre a violência histórica e a aceitação social de comportamentos extremos hoje?

Mais uma vez: por que o Brasil está desumanizando as vítimas diárias da violência nacional ou mesmo as incontáveis vítimas da pandemia em seus primeiros meses em busca de vacinação? Do ponto de vista sociológico e ético, o comportamento de menosprezar vítimas de uma pandemia pode ser considerado um ato de desumanização. Desumanizar significa negar a humanidade de alguém, seja diminuindo (ignorando) seu sofrimento, desconsiderando seus direitos ou tratando-o como menos digno de consideração moral.

Quando Bolsonaro minimizou o impacto da COVID-19 ou ironizou a morte de pessoas infectadas, ele ignorou o sofrimento humano real de milhões de brasileiros, desvalorizou vidas, tratando mortes como números ou como algo não relevante, contribuiu para a normalização de atitudes insensíveis frente à doença, o que é um traço clássico de desumanização, reduzindo, assim, a adesão a medidas de prevenção (como vacinação e isolamento), justificando negligência em políticas públicas de saúde e facilitando discursos que viam certos grupos (idosos, doentes, pobres) como “menos importantes”. 

Menosprezar vítimas da COVID é um ato de desumanização, pois nega dignidade, sofrimento e valor moral às pessoas afetadas. É uma forma de violência simbólica que legitima negligência e indiferença social.

Agora, Charlie Kirk foi lembrado como um defensor fervoroso dos valores conservadores e da liberdade de expressão. Sua esposa, Erika Kirk, assumiu a liderança da Turning Point USA e expressou perdão ao assassino, enfatizando a importância do amor e da unidade em vez da vingança. Interessante? Conseguem colocar isso em prática, Brasil de todos os lados?

A disputa política está tão saturada no país que não se avalia mais políticos no campo político. Os discursos chegam dotados de reforço enfático nos campos social, moral, religioso ou, mais necessariamente, de falhas éticas, da falta de legitimidade moral.

Mais uma vez: a linguagem que cria categorias de exclusão, desumanização ou ódio funciona como um primeiro passo da violência real. Discurso, rótulos e narrativas podem preparar o terreno para ações violentas. Por que citar como detalhe relevante ou central que o algoz de Kirk deixou sua família para morar com uma companheira trans? Vão malbaratar o exemplo de apoio à liberdade de expressão, ao diálogo, perdão, amor e unidade, criando mais antagonismo?



O homicídio é um absurdo! Isso atinge diretamente a dignidade do ser humano, criado à imagem de Deus. Apenas o homicídio é tido como absurdo? Outras falhas éticas e morais também são colocadas em nível semelhante de gravidade ou comparadas a ele. Jesus ensina que o ódio já carrega em si a raiz do assassinato:

“Qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, estará sujeito a juízo; e quem chamar a seu irmão de tolo, estará sujeito ao fogo do inferno.” (Mateus 5:21–22)

O apóstolo João reforça:

“Todo aquele que odeia a seu irmão é homicida; e vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna.” (1 João 3:15)

Ou seja, o ódio persistente é espiritualmente equiparado ao homicídio.

Provérbios 6:16–19 lista pecados que Deus “abomina”, incluindo as mãos que derramam sangue inocente, a testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos. A mentira que destrói vidas é colocada lado a lado com o homicídio.

Os profetas denunciam líderes e juízes que exploravam oprimidos e viúvas como se fosse derramar sangue inocente (Isaías 1:15–17; Jeremias 22:3,17). A negligência diante do sofrimento do próximo é vista como pecado semelhante ao de matar.

Tiago 4:2 diz: “Cobiçais, e nada tendes; matais, e ardeis de inveja...” A inveja é apresentada como raiz de homicídio e, espiritualmente, comparada a ele.

O pecado começa no coração: mesmo antes de tirar fisicamente uma vida; A desumanização, o ódio e a injustiça já são condenados como equivalentes espirituais ao homicídio.

Eu repudio, especialmente, falas que associam adversários, ameaças, vermes, monstros, ladrões, traidores, parasitas e bandidos a animais (seres incorruptíveis em sua essência). Essa fala reforça estruturas de opressão animal, inferiorizam os animais e banalizam sua exploração, por comunicar uma superioridade que não reconhece os animais como sujeitos, mas objetos. Isso é fortemente preocupante, dado a quem se fala, moldando percepções de um público que segue cegamente.


Igualmente problemática é a fala que levanta o peso da culpa dos nazistas. Igualmente problemático é afirmar que somente pessoas da direita se casam, têm filhos, deixam legados, adotam valores, buscam o eterno, a verdadeira alegria ou que possam ser cristãos. Agora o cristianismo se tornou um token particular – nem Jesus mesmo consegue te incluir no clube? Você é de direita, você acessa. Você é de esquerda, você é do mundo que jaz no maligno, você não experimenta nada do cristianismo.



Ora, qual a surpresa até hoje em Jesus ter sido sacrificado apesar de ser tudo o que ele foi e é? A narrativa era para ser essa mesmo! O mistério não está no fato de ele ter demonstrado todos os atributos de Deus; ele é Deus. O mistério está na resiliência de não ceder e não deixar de ser Deus, vivendo como homem! Qual a surpresa em “ele foi crucificado assim mesmo”? Sim, ele foi! Por e para salvar pessoas como bolsonaristas e petistas! Qual a dúvida? Devo demonstrar algum sentimento de peninha por Jesus ter sido crucificado, humilhado e menosprezado? Esse era o PLANO! Sem ele, nada de salvação! Lembrar da crucificação é UMA ORDEM! Alguém ainda espera que O GRANDE EVENTO DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE passe desapercebido pelas artes?

“O mundo é mau”... apenas o mundo que não seja da direita? E a direita é toda ela boazinha e todos os direitistas perfeitinhos? Jesus não deve ter morrido pelos direitistas, então? Não há razão ou utilidade no sacrifício de Jesus para salvar os perfeitinhos que não precisam de salvação?

Em Ezequiel 3:18, Deus adverte:

“Quando eu disser ao ímpio: Certamente morrerás; e tu não o avisares, não falares para o avisar do seu mau caminho, para salvar a sua vida, aquele ímpio morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue da tua mão o requererei.”

Aqui, o profeta é responsabilizado caso se cale diante do mal. Claramente, todos os malvados petistas morrerão, mediante a atitude dos louváveis cristãos de direita.

É inquietante que os chamados 'cristãos de fato' busquem e construam um novo mártir, um homem comum, para dar conta de seu desespero por atacar pessoas lutando por seu direito de estar aqui e ser quem são.

Friday, January 26, 2018

Luz Desconfortável



Em tempos de suposta-plena-feliz-positividade-Instagram, está escassa a coragem para assumir que somos frágeis e carecemos.

Hoje trago à memória que o Cristianismo não é recomendado para quem busca uma religião em que se sinta confortável, feliz. Uma garrafa de vinho pode fazer isso!

Qual criança (ou adulto) não teve medo do escuro? É possível perdoar quem tenha medo do que não vê. Tragédia da vida mesmo é ter medo da Luz.

Crédito para C.S. Lewis e Aristocles Plato, filho de Ariston.

Tuesday, February 02, 2016

"Raízes: o livro de minhas vida" Margareth Rafael

"Então, a árvore começou a se erguer em minha mente, começando a mostrar suas flores, terminando todo o arranjo com uma variedade incrível de frutos. Aqui está o meu fruto, a minha contribuição para essa história familiar..."

 Autobiografia de Margareth Rafael.

“A criança que existia em mim ainda brincava, à tardinha, com muitos amigos. Sentávamos na calçada que havia em frente a minha casa, muitos meninos e meninas. Brincávamos de roda, de passar anel, de "Anjo bom e Anjo mau", de "Pêra, uva ou maçã", de piques, pular corda, amarelinha etc. (...) Minha vida era assim àquela época: estudar, estudar e também já estava sendo treinada para aprender a arrumar, lavar, cozinhar, passar, olhar meus irmãos mais novos. (...) Eu era bem magrinha, braços finos, pele morena clara, olhos castanhos claros, cabelos pretos grandes. Agradeço a Deus pela minha vida, tudo que ele fez em mim e por mim.

As brincadeiras que eu aprendi foram as mais lindas e criativas que eu conheci até hoje. Quando observo as brincadeiras das crianças e pré-adolescentes de hoje, percebo que valeu a pena eu ter sido criança aqui em Itambacuri. Os jogos infantis eram lindos e variadas na escola. Em nossa casa, quase todas as noites, quando juntavam todas as crianças da vizinhança para brincarem, o lugar preferido era a calçada em frente a nossa casa. Casos reais como o que relatei, brincadeiras preferidas como essas já não existem nos dias de hoje. Eram brincadeiras em que não havia maldades. Tudo que se brincava, participava e fazia era sadio.

Ser criança é poder brincar com liberdade, com alegria, sentir a brincadeira em nosso ser, ter o sabor da liberdade no coração e na alma, sentir a inocência de brincar...”


Para o leitor, próximo ou distante, amigo, familiar, ou desconhecido, que as lembranças tricotadas neste livro, como em uma toalha na mesa de uma família mineira, se convertam em escolhas transformadoras da mente e condutoras de ações humanas, antes que tenhamos que nos flagelar a dizer: "Por que não agi enquanto havia tempo?"; "Por que tomei a decisão errada?"; "Por que...?" e antes que o resultado de nossos anelos mais íntimos não passe apenas de intenções presas no passado.

Antes de mais nada, recorde e seja grato!


Minha Resenha:

RAÍZES, Margareth Rafael 
RESENHA por Messias Junior

Reconheço que esboçar minha avaliação sobre "Raízes" é, ao mesmo tempo, um desafio, pois trata-se de um trabalho muito delicado e um aprazimento, pois eu fui o primeiro leitor deste trabalho que me apresentou fragmentos desconhecidos da história de meus familiares e de seus amigos.

O título do livro é desvendado quando a autora adentra suas lembranças da infância, como uma valiosa bagagem de vivência enraizada em sua mente por anos. As recordações na obra se reduzem ao ponto de vista de uma única folha que reconhece o valor de duradouras raízes, no papel de mantê-la saudável e unida às demais folhas da copa da árvore, entrelaçadas em galhos que desabrocham de um tronco majestoso. As raízes de uma árvore são responsáveis por ancorá-la ao solo, mantê-la ereta e estável, além de absorver água e nutrientes vitais para sua sobrevivência, crescimento, desenvolvimento e restauração de mazelas causadas aos membros expostos a intempéries.

A arte de capa apresenta fundo em tons gélidos de azul claro acinzentado que remetem a cenários nostálgicos, contrapostos com os tons de castanha bronzeado, reminiscente da terra original, dessa imagem de uma árvore imponente, cujas folhas estão dispostas em órbitas em torno de um tronco sobre raízes graciosas.

Ao fundo, nota-se a imagem de um semblante masculino, o tronco de identidade altaneira, avô da autora. Clemente Moreira de Assis foi sua inspiração para ordenar lembranças e iniciar este trabalho. A contracapa propõe um mosaico de fotos do acervo da autora que ilustram sua infância, juventude e vida adulta.

Esta é a primeira edição desta obra dedicada a parentes queridos que já faleceram e outros que, hoje, tem a oportunidade de se adentrar no universo das memórias da "Poetisa da alma branca". Não faltaram os agradecimentos àqueles que contribuíram com dados riquíssimos sobre o cotidiano de cada uma das pessoas citadas na obra, em cidades interioranas mineiras como Medina, Itambacuri, Teófilo Otoni e vizinhança.

Com a leitura minuciosa e agradável desta autobiografia em 47 capítulos, nota-se, sem qualquer sombra de dúvidas, como o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos 4 anos foi regado com muita dedicação e amor, muito respeito, atenção, carinho, saudade, nostalgia, lágrimas, sorrisos, risadas, entre outros sentimentos.

É interessante perceber como a árvore da família foi descrita já nas primeiras páginas do livro. São informações relevantes que sustentam as narrações dos capítulos por vir. Histórias nostálgicas de parentes de ambas as famílias, descrições muito bem detalhadas dos cenários que foram pano de fundo de cada evento. Apesar do tom grave de alguns acontecimentos, tudo contribui para se compreender a simplicidade com que as famílias do interior viviam, entre elementos bucólicos e trabalhos típicos das grandes casas e fazendas mineiras de outrora, cheias de pessoas vívidas, peculiares em seus modos. A cada mudança de curso, novas experiências passam a fazer parte desse percurso traçado.

O autor de "O príncipe e o mendigo", Mark Twain, destacou que atos e palavras de alguém são apenas parte de sua vida, pois sua verdadeira história se dá em seu pensamento - Ninguém conhece essa história, de fato, senão ela mesma. Ele acredita que biografias relatam (superficialmente) fatos da vida de um ser humano, mas o verdadeiro livro da vida de alguém não pode ser escrito.

"Raízes" é um esforço honesto por parte da autora de expor seus pensamentos e narrar a história de alguém que, em meio a altos e baixos, se reencontrou no caminho e continua a esboçar novas páginas deste livro.

Monday, April 18, 2011

Portrait of an Apology (revisited)

Photo: Credit to this blog.

Text: Credit to Dan's Blog.

Eu tinha um Jeep Grand Wagoneer de 1981. Ele tinha as laterais em madeira e carpetes em lã envelhecidos e bancos de vinil envelhecidos. Provavelmente, aquele será sempre o meu carro favorito. Uma bela tarde, os meus freios não funcionaram. Consegui entrar em um estacionamento e parar o carro.

Quando o mecânico deu uma olhada em meu Jeep, com uma lanterna bem forte, ele o iluminou por baixo e me mostrou os vários lugares em que a estrutura estava prestes a se enferrujar completamente.

Uma parte do chassi já estava corroída e já estava chegando ao sistema de freios, o que fez com que não funcionassem. Ele sorriu e me disse que faltou muito pouco para o Jeep se desfazer completamente, de cima a baixo. Eu estava com sorte aquele dia.

Infelizmente, ninguém havia me dito que eu estava passando por uma situação parecida em minha própria vida. Meu senso de valor próprio estava tão debilmente estiado no sempre corrosível critério da relevância musical. Então, em novembro de 1996, ele se corroeu completamente.

Acredito que eu não tinha noção do custo que isso teria. Não tenho certeza se teria feito algo diferente. Acho que eu não saberia como sobreviver aos dois primeiros anos da jornada musical do Jars of Clay de outra forma. Na maior parte do tempo, eu reagi. Tanto era possível que uma oportunidade deslanchasse nossa carreira, se disséssemos 'SIM', como a qualquer oportunidade, poderíamos destruir nossa carreia, se disséssemos 'NÃO'.

Para um adolescente que não passou muito tempo tentando entender quem era, a vida de rock 'n roll era tóxica. Não no sentido que você deve estar pensando. Sem dúvidas, havia oportunidades para sexo e álcool e, às vezes, drogas também, mas essas coisas não pareciam ser um problema para mim.

Desde o momento em que eu comecei a tocar melodias pops em um teclado Casio de 2-oitavas, à bateria, comecei a condicionar o meu valor ao meu desempenho escolar. “Transtorno por Déficit de Atenção” ainda não havia sido diagnosticado claramente como algo que devia ser tratado na infância, portanto, eu era frequentemente caracterizado como uma criança que não se concentrava. Eu era bastante inteligente, mas mal terminava o dever de casa. Eu não conseguia me concentrar, nem para salvar minha vida, ou sequer o meu boletim.

Música era a única área em que me sobressaí. Logo, fiz uso dela, para entrar nos círculos sociais. Fiz amigos, por saber tocar as músicas mais legais no piano. Eu tinha namoradas só porque eu sabia tocar “Honestly” (Stryper) e todas as músicas do Richard Marx e Axle F, além de “Somebody”, do Depeche Mode.

A ideia de que o talento musical não representava um barômetro saudável de autovalorização nunca me desafiou. Meu talento me levou às festas, garantiu empregos e me fez popular. Eu me lembro de quando eu andava pelos corredores da escola, como calouro, e a “Miss Teen USA” me parou no corredor e disse que gostava da forma como eu tocava. Não houve qualquer argumento contrário àquela ideia. Por causa de meu talento, eu passei pelo segundo grau e entrei na faculdade, mas não parou por aí.

Após dois anos de turnê, mais de 300 shows por ano, voltei para Nashville e comecei a produzir um cd de uma nova banda chamada Plumb. Eu adquiri alguns maus hábitos na turnê, por exemplo dormir mal e só beber café e comer praticamente só biscoitos Oreos. Um dia, quando eu estava no estúdio, meu coração começou a acelerar. Comecei a ter ataques de pânico. Fui ao chão. Sem perceber, eu estava no meio de uma depressão tão severa que eu me escondia em meu apartamento, contemplando a ideia de me suicidar. Eu tinha medo do telefone tocar. Eu estava em péssima forma. O processo de me arrastar daquela depressão foi o tema do cd Much Afraid. Eu estava escrevendo músicas e tentando vencer aquilo, de volta a algum tipo de sanidade ao mesmo tempo. O restante da banda não fazia ideia do que fazer comigo.

“Portrait of an Apology” era o clamor mais intenso do cd. Essa foi a música que descrevia meu medo muito bem e como me sentia, catando os cacos de uma pessoa arruinada, descobrindo que aqueles cacos não se encaixavam da forma como o todo era antes.

Foi nisso que percebi que uma pessoa não consegue simplesmente prosseguir após uma experiência como aquela. Eu estava diferente. Perdi a minha habilidade de falar lorotas e isso é essencial na indústria musical. Eu não tinha mais tempo para jogos.

Não havia mais nenhum dos construtos que antes haviam me valorizado. Fiz um balanço de tudo e não valia a pena me prender a nada. Aprendi a me separar da música. E por fim, encontrei um ponto de apoio no Evangelho, por compreender minha importância. (às vezes me esqueço disso)

Fiquei anos sem ouvir o “Much Afraid”. Tempo e distância são amigos de pessoas como eu que são obcecadas por sons de guitarras, texturas sônicas e efeitos de cordas bem posicionados. Eu precisei dar um tempo ao cd. Certa noite, um amigo me convidou a ir a sua casa, abriu uma garrafa de vinho e pegou o seu vinil do Much Afraid. Ele disse que era hora de eu ouvir a bela obra-prima que havíamos gravado. Foi uma noite profunda. Aquele cd e a turnê que veio em seguida comportavam alguns de meus momentos favoritos de nossa carreira, mas sempre me lembro do desespero que eu sentia, quando ouço essa música em particular.

Se você já teve depressão, você deve ter ouvido seus ecos na letra dessa música. Talvez você tenha se conectado profundamente com os versos sobre um homem descrevendo como é olhar para outra pessoa no espelho. Uma pessoa que parece ferida, com cicatrizes de uma batalha. Você sabe como é encher seus pulmões de ar e ficar imaginando se você terá coragem de expressar a necessidade de alguém que te ajude a fugir de si mesmo, de sua mente.

É disso que a música fala. Eu poderia explicar verso por verso, mas acho que não seria necessário. Por mais dolorosa que tenha sido a origem dessa música, ela é uma das obras musicais e melodias mais lindas que o Jars of Clay gravou, em minha opinião.

Essa é uma música que me faz lembrar que Deus nos acompanha nos lugares mais obscuros de nosso coração e mente. O amor e a paz de Deus são verdadeiramente inexoráveis.

Às vezes, cantamos versos que esperamos ser verdadeiros e que, talvez, ao cantá-los, possamos nos convencer a aguentarmos firmes na fé que nos dá a capacidade de sobreviver, como se aqueles versos fossem verdadeiros... mesmo se não acreditarmos naquilo de fato. Às vezes falamos de questões ao léu, para manifestarmos algum tipo de coragem, ou luz, ou sinal de fogo. Ao ouvir as palavras saindo de nossas bocas, podemos imaginar os elos rompidos de uma corrente, se refazerem.

Você poderia ficar mais uns minutinhos e tentar imaginar isso?

...

Wednesday, April 13, 2011

Love Song for a Savior


Texto postado no Blog do Dan, sobre Love Song for a Savior:


Esta foi a segunda música que escrevemos como uma banda. Ela foi escrita no sótão de nosso dormitório no campus do Greenville College. Stephen Mason tinha acabado de se mudar para o nosso andar, fugindo do quarto para onde foi sequestrado, como parte do processo de alocação por perfis.


A escola costumava colocar pessoas juntas, de acordo com as respostas a uma série de perguntas que faziam. Seu colega tinha um bastão de baseball, adornado com fragmentos pontiagudos de vidro, colados no bastão e ele ficava escondido no armário.


Nunca entendi quais foram suas respostas. Quando cheguei em Greenville pela primeira vez, fui alocado em um hall lotado de jogadores de baseball e futebol. Eu gostava dos caras de meu andar, mas era óbvio que o sistema de perfis não era perfeito.


O “Subsolo" onde morávamos tinha mais a ver com nós músicos. Eu me mudei durante meu segundo semestre do primeiro ano. Chamei o Steve para ficar com a gente, depois que vi o bastão no armário.


Steve trouxe o “The Bliss Album” para nosso andar. Instantaneamente, me tornei um fã de PM Dawn. Ouvi uma música que haviam gravado, usando um gancho da música “True”, do Spandau Ballet. Gostei da re- interpretação, mas não investiguei muito mais sobre sua música.


Eu queria escrever algo que usasse figuras poéticas da forma como eles usaram. Eu queria escrever uma música que falasse à inocência da vida, sobre acreditar em algo com profunda paixão, de todo o coração.


Como havíamos acabado de escrever e gravar uma música que apelidei de “The Cynics Anthem” (Hino dos Céticos), também conhecida como “Fade to Grey”, era hora de escrever algo que estava na outra extremidade do prisma.


Junto com PM Dawn, eu ouvia o cd de Sinead O’Conner’s “I Do Not Want What I Have Not Got”. Era um cd fantástico. Havia duas canções em especial.: “The Last Day of Our Acquaintance” e “I Am Stretched Out On Your Grave”, que eu costumava repetir por vezes.


Há sinais de ambas as músicas na versão antiga de Love Song. O verso


“She thanks her Jesus for the daisies and the roses... In NO simple language”


fora originalmente escrito assim “In simple language”, mas eu precisava de uma sílaba a mais. Ninguém pareceu se importar com o acréscimo, mas sem dúvida fez com que a frase tivesse um novo significado.


Todos levamos fitas com a música ainda inacabada para casa, para o feriado de Thanksgiving, ainda incertos quanto à simplicidade da letra e quanto ao refrão repetitivo.


Essa foi a primeira música que tocamos no campus, como a banda Jars of Clay.


Não sei porque eu escolhi usar uma garotinha na música. Acho que ela representava inocência, algo ainda não maculado por complexidade. Ela representava o momento em que encontramos a fé, antes de ser de fato testada.


Margaridas e rosas eram imagens contrapostas. Margaridas são o tipo de flor que uma pessoa pode se abaixar e colher em abundância. Elas crescem com facilidade, têm menos perfume e representam zero risco de ter espinhos, como as rodas têm.


Rosas são um tipo mais frágil de flor, são mais afetadas por aquilo que está ao seu redor e por causa de sua vulnerabilidade, elas também contêm defesas. Espinhos têm perfume e são perigosos. As rosas representam um amor mais profundo. A garotinha interpreta ambas as flores como iguais. Ela ainda não viveu uma vida que a permitiria entender a diferença. Além disso, há algo profundo em uma garotinha que consegue ver a vida fácil e corriqueira e a vida abundante e não segura e que consegue agradecer a Deus por ambas, em um só fôlego.


Em partes, essa é uma música sobre crescer. Essa imagem de inocência precisará ser violada pelo mundo. O pecado vai invadir essa história. Um dia ela vai precisar entender o desenrolar da história. Ela precisará se confrontar com os efeitos da Queda e terá que lutar contra as paredes que vai erigir e melancolias que ela jamais conseguirá totalmente expressar.


Essa música fala sobre a espera. Naquele momento ela pareceu ser mais honesta que qualquer outro refrão adorativo que havíamos ouvido. Escrevemos sobre a ideia de "querermos" nos apaixonar, em vez de escrevermos que estávamos apaixonados. Nossos corações não vão pertencer totalmente a Deus nesta vida. Constantemente vamos nos prostituir com outros amantes (esse é um pensamento usado em outra música).


O que desejamos é amar. Mesmo quando a vida revelar dor, confusão e complexidade, ainda assim quero amar. Mesmo quando estivermos feridos pela religião e desiludidos pela religiosidade e natureza humana, mesmo assim, desejo amar.


E a esperança de que essa espera um dia acabará é a esperança que nos permite cantar genuinamente uma música assim.